Coluna do Edmar


Prefeito Porcalhão PDF Imprimir E-mail
Escrito por Edmar Oliveira   
Ter, 01 de Dezembro de 2009 00:00

O prefeito da cidade teve uma ideia genial: deixar de recolher o lixo da cidade por um dia para o carioca saber o quanto suja a cidade. Essa foi a resposta do alcaide às inúmeras reclamações de moradores que acham o Rio muito sujo. E o prefeito diz que quem reclama está sujando, portanto, além de não merecer crédito, o prefeito vai parar o serviço público de limpeza para o carioca saber o que é bom pra tosse, como se dizia antigamente. Se se parar de sujar a cidade fica limpa. E o maior jornal da cidade bate palmas ao prefeito e retrata sujeiras de bueiros, ruas e calçadas, como descaso do morador para com a sua cidade.
Um dos maiores truques do administrador público, para lidar com uma situação de sua responsabilidade, é inverter a culpa na origem do problema. Pronto. Tá resolvido. No dia que o carioca não jogar lixo na rua a cidade fica limpa. Santa Vergonha! – diria aquele menino mascarado de carnaval para seu companheiro gay, o Morcegão. Como pode um prefeito tirar a sua responsabilidade da questão e ainda ser aplaudido pelo jornalão
Lembro que num dos primeiros cargos públicos que assumi para dirigir um serviço de saúde mental, me impressionava a sujeira dos corredores do ambulatório e a colaboração na sujeira pelos usuários do serviço. Estávamos fazendo a construção de um novo ambulatório e eu pensava como manter limpo o setor que seria inaugurado. Naquela época a primeira linha do metrô tinha sido concluída a pouco e me impressionava o contraste da sujeira da gare da central e a limpeza em brilho cera do mármore da estação do metrô ao lado. O público era o mesmo, e, sujando um ambiente, não sujava o outro. Percebi, com uma certa facilidade, que o responsável pelo cuidado do usuário com o metrô contrastando ao sujismundo da gare estava apenas na obediência à gestão dos dois lugares: lugar que já está sujo não vale a pena cuidar, lugar conservado limpo me faz mantê-lo assim. E reparava na limpeza das moças, ininterruptamente, no metrô. Inaugurei o novo ambulatório tipo metrô e ele ficou limpo, orgulhosamente limpo, por toda minha gestão.
Senhor Prefeito, limpe a cidade que esta responsabilidade é sua. Ela estando limpa, a maioria dos cidadãos vai conservá-la. Quem sujar, a partir de então, pode ser responsabilizado, multado, como queira a lei. Mas é preciso, primeiro, limpar a cidade. Ou o senhor vai propor um dia sem polícia pra gente ver como aumenta o crime. Um dia sem escolas para a gente ver que quem não quer ir as escolas são as crianças. Ou um dia sem saúde para a gente entender que é bom o nosso sistema que mata muito menos do que poderia? Eu, por mim, ficava satisfeito em dias sem esse tipo de prefeito...

Edmar Oliveira

Última atualização em Ter, 01 de Dezembro de 2009 12:17
 
Tragédia Americana PDF Imprimir E-mail
Escrito por Edmar Oliveira   
Seg, 09 de Novembro de 2009 10:45

 

Aconteceu de novo. Já tinha falado aqui neste espaço da tragédia de Virginia Tech, quando os alienistas contemporâneos pediam medidas preventivas para evitar o massacre provocado por um migrante com passado psiquiátrico. E agora me preocupo como eles vão reagir, pois desta feita foi um psiquiatra, especializado em stress, quem abriu fogo matando 13 colegas e ferindo 31 numa base militar. O major Nidal Malik Hassan, americano descendente de mulçumanos, estressado em véspera de ser mandado ao Afeganistão, para uma guerra em que teria de enfrentar seus familiares do outro lado do mundo, abriu fogo ali mesmo antecipando a guerra e escolhendo o lado em que teria de lutar. O curioso é que ele era um especialista em curar estes traumas nos soldados americanos mandados à guerra. Já se disse que à guerra são enviados os negros, os amarelos, os latinos, os árabes e seus descendentes, americanos de segunda categoria. Até para que eles defendam literalmente o país a que querem pertencer. Enquanto os americanos legítimos só são convocados quando a coisa complica e as cornetas anunciam a cavalaria que massacraram os índios.
‘No caso anterior os alienistas reivindicavam um saber psiquiátrico para resolver preventivamente a questão. E agora, quando um psiquiatra é o doido da vez? Mas lembremos que ele é cidadão de segunda categoria e o que pode acontecer é uma onda de preconceito fascista aos migrantes não legítimos americanos. Ninguém vai enxergar a causa do fato numa sociedade que determina como deve ser a vida de cada ser pertencente; e que tem no individualismo o ideal de sucesso, onde só vence quem se destaca do vizinho, um inimigo em potencial
No jornal do dia seguinte, ainda dedicado a compreender a atitude do major psiquiatra, uma notícia, sem tanto destaque, dizia que em Orlando, Flórida, um engenheiro de 40 anos entrou num escritório de uma consultoria, de onde havia sido demitido, e abriu fogo matando uma pessoa e ferindo cinco. Perguntado por uma repórter porque cometera o ato insano, respondeu se justificando: “porque eles me deixaram apodrecendo”. Simples assim. O engenheiro parece que levou para a vida real o filme de Costa Gravas, O Corte, em que o protagonista, para recuperar o emprego perdido passa a eliminar os concorrentes.
Eu, com meus botões, penso que essas tragédias americanas acontecerão mundo afora quando todo o planeta assume a concorrência, o individualismo, a competição, como os valores necessários ao mercado, aposentando os antigos ideais de cooperação, solidariedade, trabalho em equipe, que nortearam uma sociedade onde ainda se encontravam as utopias. Sem elas, as utopias que guiaram a minha geração, teremos uma nova sociedade. E, acho, absolutamente cruel como enunciam estas tragédias...

 

Última atualização em Seg, 09 de Novembro de 2009 11:09
 
A Reforma Psiquiátrica e o Carangueijo PDF Imprimir E-mail
Escrito por Edmar   
Ter, 29 de Setembro de 2009 00:00

Há nove anos, com uma equipe dirigente moldada pelos ideais da Reforma Psiquiátrica, o Instituto Municipal Nise da Silveira vinha desenvolvendo um projeto de desintitucionalização do antigo hospício, herdeiro do Hospício de Pedro II, primeiro manicômio da América Latina. Por essa herança, sabíamos que os acontecimentos ou chamavam atenção para que fosse possível “uma sociedade sem manicômios”, lema da Reforma Psiquiátrica, ou correntes contrárias teriam mais força em impedir o desenvolvimento pleno da proposta.
A proposta em execução previa a saída para a comunidade de Centros de Atenção Psicossociais (CAPS: dispositivos substitutivos ao velho manicômio), a transferência da emergência psiquiátrica para uma emergência geral e a transformação dos pacientes crônicos do hospital (de 3 a até 40 anos de internação) em cidadãos regulados por um programa de Moradia (baseado na portaria ministerial 106/2001 que cria os Serviços Residenciais Terapêuticos). Essa construção foi executada nesses nove anos de uma mesma gestão, que permanecia enquanto mudavam governos (fato raro no Brasil). Assim se fez o CAPS Clarice Lispector no Encantado, o Torquato Neto no bairro de Maria da Graça e o CAPS infanto-juvenil na Piedade, este último encerrando uma tradição de anos de internações de crianças no Engenho de Dentro. A emergência psiquiátrica especializada foi juntada à emergência geral do PAM Del Castilho, qualificando um atendimento integral de que o paciente tem mente e corpo (na emergência psiquiátrica um paciente gritando com dor no peito nunca é infarto e sim “agitação psico-motora”). Estes resultados foram animadores e possíveis apenas pelo redirecionamento de recursos públicos (pessoal, contratos, orçamento) do hospital para os serviços novos. Apenas um direcionamento e ações de gestão pública, porque sabemos da dificuldade de se obter novos recursos. Mas a intenção de trocar de lugar é possível e cria novos serviços com pedaços do velho e com melhores resultados para a população.
No projeto de Moradias foram tirados das enfermarias todos os pacientes moradores do hospital e oferecidos apartamentos em comunidade e também foram ocupadas as residências e locais que mais se pareciam com casa dentro do campus do Instituto. São 122 moradores, que agora possuem identidade, CPF, quase todos tem bolsa auxilio à desospitalização ou outro beneficio, porque a cidadania exige dinheiro. De vidas soterradas no manicômio voltaram a viver e há histórias emocionantes que se contam. Como a de Valdecir e sua viagem de avião com recursos próprios e a do Seu João Barbeiro, que com o seu auxilio foi aceito por sua pobre família no Vale do Jequitinhonha e já lá mora a mais de dois anos, depois de mais de 30 anos de internação no manicômio.
Mas ou o projeto avança ou recua, não pode ficar no estágio que se encontra. O Hospício tem uma capacidade enorme de regeneração. E há nove meses nesta nova administração da prefeitura, esperamos um avanço na proposta que levou nove anos para ficar pronta. Não houve diálogo. Nosso antigo hospital federal (que foi municipalizado) tinha sua estrutura vertebral nos servidores federais. Desde janeiro a prefeitura resolveu que estes cargos só podem ser ocupados por servidores municipais, o que inviabiliza nossa administração e arranha os princípios do SUS, quando transforma esses servidores em agentes do SUS de segunda categoria. No inicio do ano houve um corte linear de 25 % nos contratos, que já tínhamos enxugado ao máximo na nossa obsessão de gestor público. Um contrato de Vigilância reduzido a três homens à noite para 78.000 m2 de área do antigo complexo hospitalar nos coloca em situação de risco irresponsável. A paralisação do serviço de manutenção hospitalar (que já era precário antes do corte) inviabilizou pequenos reparos com deterioração da estrutura física (há um projeto de reforma do local de leitos hospitalares que foi feito na gestão anterior e esquecido nesses nove meses). A paralisação das duas caldeiras (falta de manutenção) ocasionou demora na confecção de alimentos e interdição da lavanderia. Estes (e teriam outros) são atos que inviabilizam a nossa gestão e por isso pedimos a nossa demissão, apesar do pesar de deixar um projeto que quase ficava pronto e nos foi muito caro.
Nesse vácuo, logo vem as denúncias e fotos de pacientes descuidados confundindo a falta de condições de trabalho com a clínica prestada aos pacientes. E as corporações se apressam a queixarem-se de falta de pessoal, esse buraco negro na gestão pública. Isso é apenas a ponta do iceberg. O grande problema escondido (muitas vezes já explícito) é um ataque ao SUS, esse ambicioso plano de saúde, que apesar das dificuldades e da falta de recursos, tem o melhor resultado no combate a AIDS no mundo e um Programa de Saúde Mental que vinha se firmando como um dos melhores do planeta (a mudança do financiamento ao Programa no final do ano passado paralisou seu crescimento). Certamente a nossa crise atual tem a ver com isso. Mas somos apenas uma parte do ataque ao SUS. Isso que parece uma crise na Saúde Mental logo vai ser revelada em toda a rede hospitalar se não houver mudanças nas intenções.
E logo agora que o Barack Obama resolve fazer um SUS para os americanos. O Barack sabe o que nossos burocratas ignoram: os planos de saúde só funcionam numa sociedade próxima ao pleno emprego, como era a americana até as últimas crises. Com 18 milhões de desempregados, como agora, haverá um genocídio que o Obama quer evitar na sua cruzada contra os interesses de grupos financeiros. Enquanto os EUA copiam nosso SUS, nós o jogamos na lata do lixo da história e anunciamos uma tragédia. Andamos pra trás feitos caranguejos. A Saúde Mental no Rio de janeiro é apenas o primeiro caranguejo.



Edmar Oliveira foi diretor do Instituto Municipal Nise da Silveira por 9 anos e 9 meses, de onde acaba de pedir demissão. Tem pós-graduação em psiquiatria e gestão pública e recentemente lançou um livro (Ouvindo Vozes, ed. Vieira & Lent, RJ, 2009).

Última atualização em Ter, 29 de Setembro de 2009 14:37
 
Gastronomia Carioca PDF Imprimir E-mail
Escrito por edmar   
Sex, 28 de Agosto de 2009 15:09

São duas as maneiras de fazer carne-seca no Brasil. Onde o sol abunda, a carne salgada fica em exposição solar para secar. Essa é a famosa carne-de-sol nordestina. De outra forma a carne é salgada e prensada para que desidrate, prensa que no frio do sul substitui o sol escaldante lá de cima. Essa carne-seca é o charque dos pampas gaúchos. Enquanto a carne-de-sol se pendura em cordas no meio do tempo, os do sul fazem pacotinhos de carne prensada acondicionadas em plástico. São duas naturezas de carne-seca de paladar completamente distinto um do outro. E representam o regionalismo oposto em norte e sul nessa vasta gastronomia de cada região deste imenso Brasil.
Pois bem, alguém já disse que a característica gastronômica carioca é o bife com batata frita de todo dia. Geralmente acompanhado de arroz branco e feijão preto, esse último vindo da feijoada, a gastronomia das rodas de samba carioca. O feijão carioquinha só se come em São Paulo, onde tem mais pizza que em Roma.
Mas se pode encontrar em qualquer botequim do Rio de Janeiro um prato popular em homenagem aos “paraíbas” (esses mesmos “baianos” de São Paulo): carne-seca com abóbora. Já experimentaram? Mas vejam o sincretismo carioca: vão buscar a abóbora no nordeste e o charque nos pampas gaúchos. A gastronomia carioca tenta agradar os gregos e troianos dessa odisséia brasileira...

Última atualização em Ter, 29 de Setembro de 2009 14:39
 
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