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Pequena História da Casa Lima Barreto
Começamos mesmo em 89, com a banda que tinha o pomposo - quase arrogante - nome de Banda Cultural Carnavalesca e Antropofágica Mocotó do Padre. Era uma turma que curtia artes plásticas, música, literatura e se reunia no boteco do João, para tomar "umas" acompanhadas de caldo de mocotó. Um elo que ligava essa patota suburbana era o amor pela vida e obra de Lima Barreto. O nome da banda quanto ao mocotó, implícito está; quanto ao cultural, idem; quanto ao Padre, devia-se à rua onde fazíamos nossa zona, Rua Padre Nóbrega que, cortada pela Suburbana, encontrava-se, quebrando um leve desvio à direita, com a rua do nosso patrono, a Lima Barreto. O termo antropofágico entrou, primeiro, como uma mera gozação ao padre e ao (seu) mocotó. Mas resolvemos ampliar a sacanagem, o que nos remeteu ao Manifesto Antropofágico de 1928, peça textual erigida por outro galhofeiro, o Oswald de Andrade que, por sua vez, eminente figura da Semana da Arte Moderna, pôs à luz um esquecido Lima Barreto que, muito antes, já expunha em seus escritos os conceitos básicos que permeariam o discurso conceitual daquele evento marcante para nossas letras.
A banda saía em três momentos. No carnaval, no dia 13 de maio (nascimento de LB) e no dia 20 de novembro, à época chamávamos “dia de Zumbi”, muito mais bonito e sintético do que o retórico "dia da consciência negra". Quando a banda punha o bloco na rua, todos a identificavam, imediatamente, pelo majestoso boneco negro que ia à frente desancando todos os políticos, dos municipais aos estaduais e, destes, aos federais. O boneco, já imaginam quem era, não? E quem desfilava como nossos padrinhos? O eterno Mussum, escondendo o copo de mé, à passagem de uma criança, e a grande diva da Portela, nossa tia Doca.
Pois bem, paralelamente à banda, mantínhamos um pagode na rua, bem em frente à casa do Roberto Serrão. O coro comia aos sábados, com o melhor do samba carioca.
Com o tempo, entenderíamos que a banda era muito pouco para o seu patrono e resolvemos dar-lhe uma Casa, o que efetivamos não só metaforicamente, posto que alugamos uma verdadeira casa, ali na Padre Nóbrega, 100.
Ali vivemos os dias gloriosos da Casa Lima Barreto. Éramos brindados com um desfile grandioso dos maiores nomes da nossa verdadeira música popular. Dá pra lembrar alguns: Zé Ketti, Monarco, Wilson Moreira, Davi Correia, Osmar do Cavaco, Guaraci, Noca da Portela, Dudu Nobre (ainda “engatinhando”), Zeca & irmãs Ircéia e Isabel, Doca, Surica, Argemiro, Casquinha, Ratinho, Mauro Diniz, Luna, Jorge Conceição, o pessoal do Fundo de Quintal (os mais constantes eram o Sereno e Ubirani) e outros tantos... Isso sem contar com os caras que viriam gravar depois como Pecê, Serrão, Chico Salles, Flávio de Oliveira, Vander, Nando do Cavaco, por ai...
Bem, a casa viveu seu apogeu de 1995 a 2000. Mais ou menos em 2002 fechou as portas. Os motivos são vários, mas o fundamental era o seguinte: jamais visamos lucro com a casa; não tínhamos a mentalidade do João do Mocotó, não administrávamos boteco. O que tentávamos (e conseguimos) era fazer cultura. Ingenuamente, porém, não nos dávamos conta de que só com sonho nada se constrói. E era o sonho nossa única matéria. O que nos moveu e que nos sepultou. A grana falou mais alto. Aluguel, luz, gás, IPTU, os malas do ECAD... David levou a maior surra de Golias.
Mas, se sob o ponto de vista bíblico perdemos, a mitologia ficou a nosso favor. Tal como a Fênix, uns malucos como Simão, Carlinho e DaPenha (eu não excluiria o Nilsinho), continuaram, acendendo no fogo da nostalgia, a idéia de reavermos o sonho roubado. Era uma espécie de sebastianismo de porre. E eis que retorna a Casa. Agora sem IPTU, sem contas de luz e gás e sem fiados. Alçamos novamente nosso vôo, ao lado de vários companheiros/parceiros que apostaram no sonho. E o resultado taí. E podem acreditar: é a única casa movida à paixão em toda muy leal e heróica cidade de S. Sebastião do Rio de Janeiro. |