Poesia


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Escrito por Administrator   
Sex, 26 de Junho de 2009 20:35

 

A Casa Lima Barreto abre o link Poesia fazendo justiça. Bem ao estilo de nosso patrono. Trata-se do poema "No Caminho com Maiakóvski", do qual um expressivo fragmento sempre foi atribuído ao poeta russo, mas, em verdade, é integramente de autor nosso, o brasileiríssimo Eduardo Alves Costa . Portanto consideramos ser esta a melhor maneira de iniciarmos a seção Poesia. Com dois belos sentidos: o da justiça e o da estética.

 

 

NO CAMINHO COM MAIAKÓVSKI

 

 

 

Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakóvski.
Não me importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
comum poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.

Tu sabes,
conhece melhor que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
de nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

Nos dias que correm,
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror.
Os humildes baixam a cerviz;
e nós, que não temos pacto algum
com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.
No silêncio do meu quarto
a ousadia me afogueia as faces
e eu fantasio um levante;
mas amanhã,
diante do juiz,
talvez meus lábios
calem a verdade
como um foco de germes
capaz de me destruir.


Olho ao redor
e o que vejo
e acabo por repetir
são mentiras
Mal sabe a criança dizer mãe
e a propaganda lhe destrói a consciência.
Assim, quase me arrastam
pela gola do paletó
à porta do templo
e me pedem que aguarde
até que a democracia
se digne a aparecer no balcão.
Mas eu sei,
porque não estou amedrontado
a ponto de cegar, que ela tem uma espada
a lhe espetar as costelas
e o riso que nos mostra
é uma tênue cortina
lançada sobre arsenais.

Vamos ao campo
e não os vemos ao nosso lado,
no plantio.
Mas ao tempo da colheita
lá estão
e acabam por nos roubar
até o último grão de trigo.
Dizem-nos que de nós emana o poder
mas sempre o temos contra nós.
Dizem-nos que é preciso
defender nossos lares
mas se nos rebelamos contra a opressão
é sobre nós que marcham os soldados.

E por temor eu me calo,
por temor eu aceito a condição
de falso democrata
e rotulo meus gestos
com a palavra liberdade,
procurando, num sorriso,
esconder minha dor
diante de meus superiores.
Mas dentro de mim,
com a potência de um milhão de vozes,
o coração grita - MENTIRA!

 

Última atualização em Sex, 03 de Julho de 2009 11:39
 


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